A Grande Educadora

A Grande Educadora

Por Raquel Costa / Opinião / segunda, 05 fevereiro 2018 10:01

Costumo dizer, em tom de brincadeira, que fui educada pela Televisão. Apesar de ter crescido num contexto particular - mãe doméstica e pai que trabalhava ao lado de casa - passei grande parte da minha infância à frente do pequeno ecrã.

No meu contexto - e no da esmagadora maioria dos que cresceram nos anos 80 - os conceitos de pedagogia e parentalidade não existiam. As pessoas tinham filhos e era o que Deus quisesse. Com tudo de bom e de mau que isso tinha, sobrevivemos. E é a minha geração que agora está do outro lado, no papel de educador, com uma avalanche de diretrizes, instruções e doutrinas contraditórias que são guias para alguns mas que também criam desorientação e insegurança.

 

Esta introdução serve de porta de entrada para o tema-escândalo do momento, o programa da SIC, Supernanny. É um reality show? É um documentário? É educativo? É voyeurista? É isso tudo e não é nada disso.

A discussão em torno do que é que a televisão deve ou não fazer, pode ou não exibir, é completamente estéril e ultrapassada. Já virámos e tocámos esse disco várias vezes, desde 2000, quando o Big Brother se estreou.

Apesar de já termos entrado na maioridade da era da reality tv em Portugal, continuamos a achar que a TV é nossa mãezinha e que tem o dever de nos educar (e, já agora, os nossos filhos também). Como se o comando lá de casa tivesse vontade própria e ligasse sozinho a TV, obrigando-nos a deglutir Casa dos Segredos, Love on Top, Supernanny, novelas, etc, etc. A mesma regra se aplica às redes sociais, aos smartphones e tablets: há sempre a opção de não os ter ou, tendo-os, de os desligar.

E é na palavra ‘opção’ que a porca torce o rabo. A possibilidade de escolha implica responsabilidade. E, para se ser responsável, há que ser maduro. E eu tenho sérias dúvidas que nós, portugueses, enquanto cidadãos, tenhamos chegado a essa fase de maturidade cívica.

Só assim se explica que um programa que existe desde 2004 em Inglaterra (esse país de terceiro mundo, que nem inventou a democracia nem nada) e que já foi exibido em 22 países, só aqui neste cantinho tenha gerado tal sururu. De repente, desvaneceu-se da memória coletiva a pornografia online que alguns pais semi-famosos fazem com os filhos, exibindo-os em troca de likes. Esquecemo-nos das crianças que representam nas novelas, que cantam nos talent shows, dos atores infantis que adorávamos e que caíram no esquecimento assim que lhes começou a crescer a barba ou as mamas.

Não! Nada disso existe. O que existe, a montante são maus pais, que “não sabem educar” (adoro este argumento), crianças mal-educadas, “que não levaram uma boa palmada naquele rabo”, uma psicóloga “que não percebe nada daquilo” e uma estação de televisão “que viola o direito à privacidade das criancinhas”.

A jusante, estão os peritos em pedagogia, os sábios da parentalidade, os mestres da puericultura, munidos da varinha mágica da sapiência do século XXI: o smartphone. Enquanto os filhos comem uma pizza congelada e brincam com o tablet, estes magos, com o cu sentado no sofá, debitam os seus conhecimentos de parentalidade na primeira caixa de comentários que lhes aparecer à frente. Eles é que sabem! “No meu tempo não era assim!”, “Ai se os meus filhos fizessem aquilo!”, tuitam, enquanto os miúdos gritam ‘ó mãe, anda brincar!”.

E, no meio disto tudo, o que me deixa perplexa é a enorme falta de compaixão por aqueles que, não tendo ferramentas, recursos sociais ou mesmo financeiros, se atreveram a pedir ajuda. Tiveram o desplante de assumir que, neste momento, não são bons pais, que já não podem ver os filhos à frente nem pintados de ouro, que já não aguentam mais. Que precisam de alguém que lhes diga: “é por aqui”.

É mais fácil dizer “não vales nada” do que admitir “eu também passo pelo mesmo”. É mais confortável apontar o dedo do que olharmo-nos ao espelho.

Os primeiros dois episódios foram vistos por uma média de 1,2 milhões de pessoas (estima-se que, àquela hora, estejam 3,3 milhões com o televisor ligado): é porque gostamos de ver a desgraça alheia para criticar ou porque, no fundo, nos reconhecemos ali?

 

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