2017, o ano dos facilitadores

2017, o ano dos facilitadores

Por Raquel Costa / Opinião / quinta, 21 dezembro 2017 15:22

Quando algo errado acontece, há a tendência simplista de tentar encontrar um só culpado, um nome que se possa pregar na cruz, incendiar, destruir. Um elemento no qual possamos projetar toda a nossa raiva, desilusão, deceção, esquecendo convenientemente que, para o mal acontecer, é necessário que tenham sido criadas condições que, no desenrolar do processo, conduziram a um determinado desfecho.

Podemos começar por Donald Trump, que tomou posse no início do ano e acabar em dezembro, com a revelação do escândalo Raríssimas e das alegadas adoções ilegais pela Igreja Universal do Reino de Deus. Podemos passar pelos incêndios de Pedrogão Grande e de 15 de outubro, pelo roubo de material de guerra em Tancos, pela torre de Grenfell, cuja destruição pelo fogo conduziu à morte de 71 pessoas, passando pelo massacre dos rohingyas, em Myanmar, até à nova guerra fria entre os EUA e a Coreia do Norte ou mesmo a nova escalada de violência no Médio Oriente após o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel por Trump.

E não nos podemos esquecer da revolução em curso espoletada pelo escândalo Harvey Weinstein, que colocou finalmente em cima da mesa o tema do assédio e abuso sexual como práticas até agora mais ou menos aceites e dificilmente reveláveis/julgáveis/condenáveis.

Por detrás de cada má decisão conjuntural, por detrás do rosto da mesma, existem um sem número de facilitadores. O inglês tem uma palavra que, traduzida, perde um pouco do seu poder semântico: enablers, “uma pessoa ou uma coisa que torna algo possível”.

Donald Trump não chegou ao poder sozinho. Foi eleito por milhões que o colocaram lá. Mesmo que quiséssemos culpar a “estupidez norte-americana” (esse raciocínio simplista para nós, europeus, que desconhecemos a complexidade cultural de um país que é uma manta de retalhos ideológica), a mesma não chega para explicar como é que apenas um homem é capaz de destruir, por exemplo, um sistema de cuidados de saúde para crianças oriundas de famílias com menos recursos financeiros. Os facilitadores empoderaram Trump. Mas não os vemos porque não têm rosto.

O mesmo aconteceu, a nível nacional, com um sem número de gente sem rosto mas com responsabilidade que permitiu que a incúria conduzisse à morte, em duas ocasiões distintas, de mais de uma centena de pessoas. É fácil apontar o dedo a António Costa, Constança Urbano de Sousa, os visíveis. E os outros, que pelo seu silêncio, falta de profissionalismo, laxismo, possivelmente permeabilidade à corrupção, permitiram que isto acontecesse?

Paula Brito e Costa, a infame presidente da Raríssimas, tem sido, na passada semana, o alvo preferido do nacional-trollismo e o bombo da festa predilecto de posts, memes, crónicas, comentários, achismos vários. Quem foram os facilitadores sem rosto de Paula Brito e Costa? Quem lhe permitiu, durante anos a fio, viver à conta de fundos destinados aos cuidados de pacientes e respetivas famílias? Terá sido ela obreira solitária dos desfalques?

John Donne, poeta inglês do final do século XVI, escrevia: "Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo”. 2017 serviu-nos numa bandeja de prata a lição a tirar para 2018. Sermos mais cidadãos, mais exigentes, mais vigilantes. Sob pena que a história se continue a repetir até à entropia. 

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