Natal: antes de comprar, páre, pense... e guarde a carteira

Natal: antes de comprar, páre, pense... e guarde a carteira

Por Raquel Costa / Opinião / quinta, 30 novembro 2017 14:54

Tenho uma confissão a fazer: eu fui uma criança muito irritante. Particularmente irritante quando chegavam as festividades natalícias.

Não por culpa dos meus pais mas mais por feitio, tenho bem presentes as birras de antologia que fiz por causa de prendas de Natal. Há uma história particularmente peculiar – que, de resto, a minha mãe adora contar para as pessoas se rirem às minhas custas – da senda que ela passou para encontrar um determinado jogo de tabuleiro que eu queria e que não estava à venda em lado nenhum.

 

É preciso enquadrar isto no tempo. No início dos anos 90 não havia grandes superfícies. Em Oliveira de Azeméis, existia o saudoso Bazar 2000 e, de resto, só indo a São João da Madeira ou, para os mais modernos, ao Porto.

Apesar das birras, das quais agora tenho uma vergonha imensa e que me enervam solenemente em crianças pequenas, reconheço um grande mérito na educação natalícia que os meus pais me deram: o que queríamos tinha de ser desejado, especial. E tínhamos de esperar para o ter. E se nos portássemos mal (mais eu do que a minha irmã, coitada, que nunca partia um prato) não havia prendas para ninguém (sim, eu recebi uma colher de pau e um saco de piri-piri num certo Natal. E foi merecido). O que é certo é que, ainda hoje, sei de cor cada prenda, sei exatamente o momento em que a recebi, as emoções que senti, o que brinquei com cada Barbie, cada Nenuco, com o sintetizador no qual aprendi a tocar.

Agora, já na idade adulta, e a cada ano que passa, tenho uma visão cada vez mais crítica do lado consumista e egoísta do Natal. A começar pelas Black Friday, passando pelas correrias de última hora aos centros comerciais nas vésperas do dia 25 até ao desembrulhar voraz de presentes que não servem para nada a não ser para pais, avós, tios, padrinhos, mostrarem uns aos outros que têm capacidades financeiras para comprar em quantidade... independentemente de, dali a meia hora, o mais provável é estarem os petizes a brincar com os papéis amarrotados do que com os artefactos oferecidos.

Este Natal, proponho-lhe um exercício. Antes de entrar numa loja para comprar coisas (porque é disso que estamos a falar, coisas), com o intuito de cumprir uma obrigação ou fazer alguém (supostamente) feliz, pense: para que é que isto serve? Será que a outra pessoa precisa mesmo disto? Em que é que isto reflete a relação que eu tenho com essa pessoa?

E, se por ventura, vai comprar alguma coisa para si, seja um computador, uma Playstation ou um par de sapatos, faça o mesmo exercício: isto faz-me realmente falta? Preciso disto para estar mais feliz? Em que é que isto vai contribuir para o meu bem estar?

É um exercício difícil, eu sei. É mais fácil comprar, ter aquela gratificação imediata e, depois, já em casa, perceber que gastámos dinheiro com algo que não é mais do que – muitas vezes – um placebo.

Porque, na verdade, o Natal não é as coisas que temos, os presentes que compramos. O Natal somos nós, o amor, a amizade, o calor que temos para dar. E é também termos a capacidade de saber receber. De braços abertos.

Feliz Natal. 

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