Weinstein da Silva

Weinstein da Silva

Por Raquel Costa / Opinião / sexta, 17 novembro 2017 15:35

O senhor Manuel é um empresário muito reputado na sua região. Emprega centenas de pessoas, é respeitado e influente. A Maria e o António trabalham numa das fábricas do senhor Manuel. Ganham o salário mínimo, têm dois filhos.

O senhor Manuel tem uma particular afeição pela Maria… e por todas as funcionárias com mamas grandes. “Ó Maria, você devia andar mais vezes de decote”, diz o senhor Manuel, de vez em quando, quando se cruza com a Maria.

A Maria não reage e, de cabeça baixa, continua a trabalhar. Sente-se humilhada. “O senhor Manuel devia ter-me mais respeito, sou uma mulher casada!”. Pensa, mas nunca diz. Tem vergonha, porque ninguém reage. Ninguém diz nada e também não quer ser ela a arranjar problemas.

Um dia, o senhor Manuel chama-a ao escritório. “Fecha a porta, Maria”. Treme de medo. Sabe que o que a espera não é coisa boa. O patrão tem as mãos escondidas debaixo da secretária. Um dos braços move-se, compassado. “Sabe que eu gosto muito de si e do seu marido…”

O senhor Manuel levanta-se. Maria fica parada, congelada. Sente o estômago às voltas, quer vomitar. Quer sair, ir-se embora. Mas fica, paralisada de vergonha, de medo. Não pode perder o trabalho. O marido também não. Quando sai, as lágrimas caem-lhe em catadupa. Não pode contar ao marido. Ele nunca iria acreditar.

O doutor José é muito respeitado lá na terra. Ninguém sabe muito bem porque é doutor mas toda a gente o trata assim. Tem um cargo na câmara e é muito bem falante. O doutor José é sempre simpático para toda a gente e é amigo de todos. Até no Facebook.

E é através do Facebook que o doutor José gosta de falar com as suas conterrâneas. Novas, velhas, mas a preferência dele são mesmo as mais jovens. Pede-lhes amizade, faz conversa de circunstância, envia-lhes fotos dos destinos paradisíacos, dos restaurantes, de sítios chiques. “Gostavas de vir comigo? Para a próxima podes vir!”. Depois, assim que ganha a confiança delas, pede fotos. “Vá lá, manda só uma, sem soutien! Não confias em mim?”.

Quando elas são mais atrevidas e ameaçam denunciá-lo, é ele quem as ameaça. “O que é que o teu pai ia achar se soubesse que a filha andava a mandar estas fotos? Não ia gostar, pois não?”. O doutor José tem-se safado bem assim. Até chega a vias de facto com algumas. Sente-se poderoso, é o Senhor Doutor.

Pronto. Agora que vos ofereci dois exemplos práticos, passíveis de estarem a acontecer precisamente na vossa casa, na vossa vizinhança, na vossa terra, podemos parar com essa conversa de que o assédio sexual é uma mania de gajas ressabiadas e falar seriamente sobre esta epidemia?  

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