Mas você sabe com quem está a falar?

Mas você sabe com quem está a falar?

Por Sandra Marques de Paiva / Opinião / segunda, 30 outubro 2017 10:09

Há uns anos atrás, cruzei-me com algumas pessoas que, além de serem muito mais jovens do que eu, eram tão, mas tão snobs.

As suas atitudes causavam-me uma certa espécie. Achava tão despropositado e incoerente, uma geração mais jovem ter ou imitar códigos sociais e tiques que pensei já não existirem por estarem totalmente fora do contexto da vida actual.

A palavra snob começou a ser usada para designar as novas famílias ricas que copiavam a forma de ser e estar das classes mais altas, ou seja, era um termo depreciativo (continua a ser) associado a uma exaltação exagerada de uma posição social elevada e financeiramente abastada. Snob é uma abreviatura da expressão "sine nobilitate", que significa sem nobreza.

Há centenas de anos atrás, snob referia-se a um aprendiz de sapateiro!

Ao longo do tempo, o termo foi evoluindo e ganhando um novo significado, associando-se à denominação de alpinistas sociais.

Os alpinistas sociais ( é difícil falar de uns, sem abordar outros) são indivíduos que investem em relacionamentos com pessoas de maior poder aquisitivo, com o objectivo de chegar às classes sociais mais altas e gozar desses privilégios. Sonham em ser reconhecidos e merecer atenção a qualquer custo e o que é mais fácil de fazer? Tornarem-se snobs.

Definição de SNOB:

1) aquele que demonstra um respeito exagerado por um estatuto social elevado ou riqueza e que procura associar-se a quem considera superior, menosprezando quem considera socialmente inferior;

2) aquele que acredita que o seu gosto numa determinada área é superior ao dos que o rodeiam.

Um snob faz distinção entre uma suposta elite e as massas, acha que pertence a um círculo social superior e faz questão de o mostrar criando uma distância propositada entre si e o comum dos mortais.

Esta atitude, permitam-me acrescentar, costuma ser mais comum numa mulher do que num homem, embora também hajam homens snobs e eu conheço alguns, tristes almas. É muito fácil de os reconhecer: através da linguagem (tá a vêre?), da postura e da forma como se apresentam. Trocando por moedas, todo o seu ser é treinado, nada flui naturalmente. O que importa é o status para se sentirem "reconfortados" pelos seus pares.

Snob que é snob tem de cumprir escrupulosamente os protocolos do grupo através da escolha de vocabulário, dos nomes dos filhos e da quantidade, do vestuário (só de marca e quanto mais caro melhor, para poderem dizer em voz alta), maneiras e gostos (vai um gin?). Uma canseira. São regidos por falsos valores e uma vaidade sem limites, o que é lamentável, convenhamos. Têm a mania que são aristocratas quando, na verdade, são acrobatas.

Então, voltando aos jovens atrás referidos, formou-se um casalinho que se consta ter sido um arranjinho da família. Pois.... a sério. É como os cães, só se juntam para procriar animais com pedigree.

Desse casal nasceu uma criança e o seu baptizado pareceu o da família real!!! Cruzes, credo.

Ter maneiras exageradas é próprio de quem não tem a legitimidade para pertencer ao grupo a que aspira, pois quem tem efectivamente um determinado estatuto, não tem necessidade de o provar aos outros. Presunção e água benta, cada um toma a que quer. Mas em Portugal é mesmo corriqueiro. Nunca tivemos uma aristocracia digna desse nome, portanto aqui ninguém sabe bem o que imitar (a Lili Caneças não vale, tá?) e algo que não é inato, não passa de teatro.

O que mais desperta o snobismo é a exclusão propositada do outro para alimentar um ego ferido, conseguir satisfazer uma necessidade de se sentir superior e compensar alguma lacuna. Uma conta com alguns zeros no banco é o suficiente.

Agora, este tipo de atitudes em pessoas mais jovens é deplorável, no mínimo, bizarro. Numa era em que a tecnologia nos aproxima e quando se procura caminhar para uma sociedade livre de rótulos, preconceitos e conservadorismo decadente, incentivar códigos datados é algo contraditório. Esses incentivos, mesmo que não sejam por palavras, costumam vir dos paizinhos bem. Basta-lhes notar os apelidos dos meninos com quem os seus filhos convivem, em vez de olharem para o mérito das pessoas, apenas observam a sua árvore genealógica munindo-se de estratégias que sirvam de trampolim para uma ascensão social.

O sucesso não é, nem nunca foi, obra do acaso, é que nem com as Kardashians. É o resultado de um esforço dirigido e perspicaz, para aqueles que se destacam e que fazem diferente do que a maioria faz.

Mais do que códigos e atitudes mecanizadas, o que interessa mesmo são as ideias que temos e a forma como olhamos o mundo que deveria ser, também, o que procuramos nas pessoas que escolhemos ter à nossa volta. Cultivar o espírito critico e a independência para que não deixemos apagar a nossa essência em nome de coisas pequenas, que pesam nas escolhas que fazemos.

 

Que o diga quem casou com alguém por ser "de boas famílias"!

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