Um psiquiatra para Neto de Moura

Um psiquiatra para Neto de Moura

Por Raquel Costa / Opinião / segunda, 30 outubro 2017 09:56

Aconteceu no Porto. Não foi no Afeganistão, nem na República Democrática do Congo nem no Iraque, os piores países do mundo para se ser mulher.

Aconteceu cá: uma mulher foi sequestrada, depois agredida com uma moca com pregos (o requintado pormenor medieval…) pelo marido e por outro homem com quem tinha tido um envolvimento. Assim, de caras, provas apuradas, parece inequívoco que estes dois senhores deveriam ser condenados por actos que são, legal, ética e moralmente, comummente considerados errados.

Mas não. O juiz Neto de Moura teve outro entendimento e deixou estes dois homens sair em liberdade, deixando provas escritas de que aceita e compreende que se agrida fisicamente uma mulher. Sobretudo se ela for “adúltera” (seja lá o que isso quiser dizer…).

O juiz Neto de Moura, no acórdão do Tribunal da Relação do Porto, escreve que “na Bíblia podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte”. Citando a Bíblia e um artigo do código penal de 1886, Neto de Moura justifica os actos dos agressores com os “pecados” da vítima. Assim, Neto de Moura, resume, representa e legitima uma ideia perversa que persiste na nossa sociedade, ainda profundamente misógina e patriarcal: as mulheres dividem-se em duas categorias. As santas e as putas. As primeiras vão para o altar, as segundas para a fogueira.

Este acórdão, os pormenores que agora conhecemos, dizem muito daquilo que ainda é o que podemos chamar do “orgulho do macho ferido”, que serve de motor aos mais variados, desde a violência emocional ao homicídio, passando pela tortura e agressão. Porque o agressor, o marido, não agiu sozinho. Agiu em conluio com o tal amante, que inicialmente raptou a mulher. Os dois agrediram-na. Os dois saíram do Tribunal da Relação em liberdade.

O que o juiz Neto de Moura fez foi dar carta branca a todos os agressores. De mulheres, de crianças, de homossexuais (aquelas categorias menores de seres humanos que a Bíblia também refere como sendo aceitável que sejam alvo de violência. Já que estamos a citar os textos sagrados, vamos ser rigorosos!).

Na SIC Notícias, vejo o rosto, a voz, a postura de Neto de Moura. O seu sotaquezinho provinciano, a voz melíflua, o cabelinho ralo, os olhos encovados, inexpressivos. Aquele semblante, ao mesmo tempo patético e assustador.

Urge que se faça crowdfunding para o senhor juiz Neto de Moura. Proponho, até, que nós, mulheres de Portugal, nos unamos para financiar as consultas de psiquiatria deste homem. Claramente, Neto de Moura tem problemas para resolver. Freud explica e eu até intuo que o senhor juiz tenha tido, no passado, graves problemas de relacionamento com o sexo feminino, problemas esses que, misturados quiçá com uma educação católica severa e outras neuroses, degeneraram nisto: Neto de Moura de toga, travestido do Deus castigador do Antigo Testamento.

E uma nota final para a desembargadora Luísa Arantes, que assinou o acórdão, aceitando tacitamente um discurso, uma posição, uma decisão que nos faz regredir um século no que toca à igualdade de género: dê a cara, peça desculpa ou esconda-se e nunca mais saia à rua.

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