A minha rua está moribunda

A minha rua está moribunda

Por Isabel Brandão / Opinião / segunda, 16 outubro 2017 08:57

Há alguns anos tive a oportunidade de me mudar para a Rua Bento Carqueja e fazer dela a minha rua.

Sendo uma rua antiga e das mais tradicionais da nossa cidade, vejo com algum desencanto e tristeza a falta de actividade e movimento que se faz sentir por cá.

 

Ladeada de casas antigas, todas elas com história, algumas históricas, mas todas elas vazias, sem nada nem ninguém, a rua estende-se preguiçosamente ao longo da parte antiga da cidade.

 

Ao falar com as pessoas, gentes da nossa terra, algumas – poucas - moradoras da rua, outras donas dos poucos negócios que ainda vão sobrevivendo aqui e ali, em todas vejo a tristeza e a melancolia em relação a tempos idos, onde a rua era uma artéria principal da cidade, onde se movimentavam pessoas e negócios, onde existia "vida".

Vejo, por um lado e com agrado, algumas dessas casas – particulares - sendo recuperadas. A resiliência e a esperança das pessoas ainda assim não morreu. Por outro lado, vejo a inércia de quem poderia fazer muito mais.

A "malaposta", antiga mercantil, casa brazonada, é um verdadeiro exemplo do tanto que não se faz pelo nosso património. Sendo este um edifício que pertence à Camara Municipal, vemo-lo cair aos pedaços, com o telhado quase a abater. Imagino como estará o interior, para não falar da fachada.

Com isto, somos presenteados com o cheiro nauseabundo que invade toda a rua, as casas e os negócios, resultado de um saneamento inexistente ou "pré-histórico".

Resta-nos ainda assistir de quando em vez à visita e posterior passeio pela rua de grandes ratazanas, saídas dessas casas "abandonadas", contentes e felizes, esperando encontrar apenas uma porta aberta para poderem entrar, como já aconteceu, obrigando as pessoas a chamar pessoal especializado para as erradicar.

E as casas vão morrendo lentamente por toda a rua, assim como o comércio e até mesmo os moradores que já são em número inferior a dez e vão sendo cada vez menos.

A minha rua está moribunda.

Queria mais para a minha rua. E a minha rua é apenas uma. Por certo haverá outras. Mas afinal não é no início (ou no final) desta rua que se encontram os Paços do Concelho, quase um dos cartões de visita da cidade? Não é esta a rua que faz parte dos caminhos de Santiago? Não é esta a rua que está ligada à nossa igreja matriz? Não foi esta rua a principal ligação Lisboa/Porto? Não seria de esperar mais?

Faço um único apelo ao novo executivo: não deixem morrer uma rua histórica, não deixem ao acaso o nosso património, aquilo que nos define, que demonstra o nosso passado e as nossas raízes.

Criem acções, actividades, incentivos, programas, para que quem anda por aqui 24 horas por dia possa também fazer algo em benefício da nossa rua, da nossa cidade e da nossa terra. 

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