Lá vai o Pangaio

Lá vai o Pangaio

Por Nuno Araújo / Opinião / segunda, 16 outubro 2017 08:26

Encolhes os ombros e flectes os braços mostrando as palmas das mãos, como só quem nada tem a esconder sabe tão bem fazer, livre de proezas impuras e desonestidades malditas. É um mostrar de palmas das mãos que sai sem premeditação enganosa, acompanha o habitual riso ou a mera interrogação em jeito de brincadeira…

Ajeitas o chapéu que prolonga o teu ser e, num choro de sinos, um amigo lembra que daqui a dois dias todos olharemos para o nosso umbigo numa submissão banal e ligeiramente hipócrita ao ego mundano. É a humanização desumanizada, desarrumada, maldita e cínica que nos protege dessa morte aleatória que nos confronta e preferimos ignorar.

 

Lá vai o Pangaio de pasteleira, a tocar corneta e a acenar.

Lá está o Pangaio a rir do riso, a chorar do choro e a comer “o comer” que partilha com o estranho homem de chapéu que um dia viu ao espelho e com ele quis fazer as pazes…

Lá chama o Pangaio por nós, para mais um festim fraterno, regado com afectos, apimentado com júbilo, temperado com a aritmética dos deuses, sem mácula de qualquer espécie – infâmia daquele que não mostra as palmas das mãos!…

“Só por causa das coisas” (dizias tu) levaste com três abraços fraternos, meu amigo, meu igual, e retribuías em dobro numa invulgar perspicácia, olhando sem estranheza para aquela cadeia de união como se dela sempre tivesses feito parte. Só se pasma quem não ama a diferença! Custa muito sujar as palmas das mãos com a labuta desinteressada no terreno fértil da diversidade por ti acarinhada.

Tratavas o senhor, o doutor, o engenheiro, o toninho, a senhora do café, a velha do restaurante, o actor, o empresário e o presidente com a mesma delicadeza inquietante e nunca despias a «persona», sem teimosamente deixares de estar a coberto.

És a raridade da simplicidade do ser que se deleita com o riso dos outros nas inúmeras egrégoras por ti erigidas, fosse no agostinho, no osorinho, no quim, num templo ou na tua CASAZ.

Era o galo que chegava à mesa para que o nosso amigo do umbigo não sentisse a ausência da tua presença e só poderias ter sido tu fazê-lo verter lágrimas com sal.

Combatias a hipocrisia pérfida dos espíritos intolerantes construindo pontes fraternas e solidárias em teu redor, multiplicando-se e ramificando-se em mais e mais teias que só a imprevisibilidade das relações humanas tornam possível destruir a matemática e as certezas certinhas.

As figuras revolucionárias têm sempre chapéu e talvez sirva para atenuar a dor do pensamento solitário ou, quiçá, impedir que as ideias voem sem antes serem partilhadas. É a graça utópica dos idealistas que, como tu, tão bem souberam dar corpo e forma aos devaneios que rondam as sinapses, pois raros são aqueles que lascam as unhas e cortam as palmas das mãos.

Olho para um chapéu de palha avermelhado que me trouxeste porque estava muito sol, sem nada te pedir, apenas lembraste que poderia fazer falta a alguém. Iniciavas as formalidades para que nada faltasse a ninguém e eras sempre o último. Tenho a certeza que cederias à tentação de ver primeiro uma aurora boreal sem que os outros te antecedessem, não por mera cordialidade, pois apreciarias mais a felicidade contemplativa humana do que a sua origem.

Agora, talvez caminhes com o bordão no capítulo celestial da confraria dos deuses. O teu legado ganhará forma e continuidade no mundo terreno, eternizando o chapéu de um homem justo e livre. Que assim seja… 

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