(Também) é difícil ser homem

(Também) é difícil ser homem

Por Raquel Costa / Opinião / sexta, 29 setembro 2017 09:09
Não é por ser mulher que escrevo isto. É (ainda) infinitamente mais difícil ser mulher do que ser homem, mesmo que vivamos num país (supostamente) desenvolvido, numa sociedade igualitária, numa democracia.
Os críticos boçais do feminismo (a esmagadora maioria nem sequer sabe o que significa a palavra) argumenta que, atualmente, as mulheres gozam dos mesmos direitos do sexo masculino. Mas tal é facilmente rebatível com estatísticas, por exemplo, de violência doméstica e de desigualdade salarial. 
 
Ainda assim, é difícil ser homem. Cada vez mais. O que se esperava de um homem há 30 anos? Que fosse o sustento da casa, produzisse filhos e pouco mais. Hoje em dia, a bitola da exigência está muito mais alta. O homem tem de ser bom profissional, bom marido, bom pai, vestir-se bem, estar em forma, ter sucesso. Mas há algo que, embora já devesse ter mudado, permanecesse cristalizado.
Ainda é visto com maus olhos que um homem expresse a sua sensibilidade e ainda mais dificilmente aceite que exprima algum tipo de dificuldade emocional/psicológica.
 
Uma mulher que, por exemplo, atravesse uma depressão pós-parto, encontra compreensão e apoio generalizados. No caso de um homem que enfrente um esgotamento ou algum tipo de problema emocional é, regra geral, visto como fraco. Como menos masculino.
 
Isto cria uma pressão imensa que, em muitos casos, desagua em frustração, raiva, shutdown emocional. Isto é particularmente visível em situações in extremis, como divórcios, por exemplo. Se, regra geral, uma mulher que entra numa fase de rutura já cria mecanismos pragmáticos para enfrentar esse momento, a maioria dos homens fica completamente perdida. 
 
Acredito que isto acontece porque – infelizmente – os homens não foram educados para sentir, para ouvirem as suas próprias emoções. É-lhes dito, desde a infância, que têm de ser fortes, machos, conquistadores, máquinas de produzir dinheiro e filhos. Ninguém lhes diz que não há problema nenhum em fracassar. Porque o fracasso não é sexy. Não é masculino. Não é de macho.
 
Não somos uma sociedade construída para a compaixão e, na intimidade, na tensa e complexa relação de poder que são os namoros, os casamentos, poucos são os homens que encontram portos seguros onde possam ser eles próprios. Sem máscaras. 
 
Cabe a todos desmistificar esta ideia do macho-alfa, de que “homem que é homem não chora”. Não só porque queremos maridos e namorados que sejam seres humanos mais completos mas também porque queremos que os nossos filhos sejam educados por pessoas plenas. 

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