O escravo político

O escravo político

Por Nuno Araújo / Opinião / sexta, 15 setembro 2017 16:29

De acordo com nova língua “tech”, as redes sociais foram humanizadas no seu mais profundo sentido emocional, ou não fossem habituais os títulos de jornais e revistas que assim o asseveram.

É comum, deste modo, sabermos que as redes sociais se indignam, reagem e rejubilam com coisas que se passam no mundo, no país e na terra, estando os factos, a análise e a investigação séria no limite inferior das narrativas virtuais. E todos acreditam cegamente no que diz a net, o facebook, ou outra rede qualquer, como se esta vida própria da web social (mas nada socializadora) fosse o garante de alguma informação credível e fundamentada. No meio desta amálgama de coisas, em momentos cirúrgicos, surgem os antigos panfletários que já não precisam de recorrer ao escuro da noite para distribuírem comunicados anónimos e ofensivos.

No cantinho de casa, ou no recanto do seu “trabalho”, teclam com ódio e fel contra “os outros” sob a cobarde capa do anonimato, criando perfis falsos e grupos suficientemente dúbios (mas eficientes nos seus propósitos) para assim matarem mais um pouco a liberdade, a democracia e o respeito pela diferença.

Nesta época de campanha autárquica, é fácil perceber como esta miscelânea de coisas contribui negativamente para o esclarecimento e debate.

Responde-se com insinuações; evita-se o confronto de ideias; lança-se a confusão estética para matar a semântica, pois já não interessa o significado, mas sim o ruído, o fumo e a superficialidade epidérmica do vazio; interessa a imagem, muita imagem, com cores, orgulho, seriedade, sorrisos, braços cruzados e mangas arregaçadas para dar a ideia de dinâmica, trabalho e de que “agora é que vai ser diferente”; manda-se lançar farpas usando a “voz” daqueles que procuram, em bicos de pés, um lugarzinho bom que lhes resolva a vidinha, e lá vão eles, contentes e satisfeitos, mandar as suas bocas numa cega lealdade partidária (também esta frequentemente cirúrgica no tempo).

Talvez seja um saudosista das campanhas à moda antiga, ou apenas ando irritado com a excessiva atenção dada por candidatos e eleitores ao que pulula nas redes sociais.

Os primeiros inundam o mundo virtual com as presenças, discursos e meias propostas “tweetadas” como se o maravilhoso novo mundo da internet fosse a realidade; quanto aos segundos, duvido que espelhem a realidade eleitoral, porém, vão alimentando e desinformando sucessivamente os seus pares renegando para último plano a nobreza da política e da causa pública.

Admito que a minha irritação generalize em demasia, pois nem todos os discursos das redes sociais alinham pela mesma batuta do vazio, mas vale a pena reflectir sobre o que se passa, ou não?

Se o acesso à informação era quase exclusivo de uma elite, actualmente, o desafio é seleccionar o que interessa e aprofundar, e este exercício é extremamente difícil pela quantidade “gigabaitica” de dados informativos e pelo comodismo a que nos votámos ao querer apenas saber tudo sobre absolutamente nada.

As campanhas eleitorais seguem a tendência e envolvem-nos com tiros certeiros de palavras perfumadas e slogans que entram à mesma velocidade que saem, sem que tenhamos tempo para digerir a informação…

Outro exercício perigoso é precisamente o julgamento rápido, fácil e sem escrutínio que se faz de pessoas, grupos e situações, sem que paremos para pensar e avaliar as circunstâncias. Aliás, sem que possamos, por exemplo, falar com os outros, frente a frente, e questioná-los, pura e simplesmente falar sem a confortável protecção do ecrã.

Haverá um dia em que os eleitores poderão falar com um “web robot” e colocar as suas perguntas; existirão programas cujo algoritmo possibilitará reunir num segundo aquilo que as redes sociais sentem, pensam e dizem para que propostas eleitorais encaixem perfeitamente num determinado perfil de votante que se pretende seduzir; estaremos subjugados à vontade da web humanizada (mas nada humana) e o animal político de Aristóteles dará lugar ao escravo político de Mark Zuckerberg; a palavra e a oralidade serão amordaçadas em nome da imagem dinâmica 5, 6 ou 10 D, e ficaremos mudos, pois pensar vai doer muito.

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