O cinzento que mata as cores

O cinzento que mata as cores

Por Nuno Araújo / Opinião / quinta, 24 agosto 2017 13:53

Num artigo escrito neste jornal há uns meses, disse que “só combatemos esta letargia acrítica e incapacitante com inquietação constante, despudor no discurso e opinião desenvergonhada.

Sem medos…”. Referia-me ao aparente comodismo confortável que nós, oliveirenses, teimamos em manter quando ficamos agarrados a grupos, partidos, organizações informais ou a relações instrumentalizadas pela necessidade laboral ou conveniência social. Isto é mais ou menos natural dada a estranheza ao estranho (a redundância é propositada), ao incontrolável e ao imprevisível, e sente-se bem na pele as reacções a opiniões que fogem do estereótipo “ideológico” que reina no imaginário de quem desses grupos faz parte.

Ora, numa terra destas, com mais de 40 anos de predominância monopartidária, é expectável que uma larga maioria da população reaja da mesma forma, isto é, não se liberte das amarras do pensamento único e perpetue um modo de vida cinzento, sem as necessárias cores que nos impelem a uma exigência que não se limite a minudências desinteressantes, ou enredos que se resumem a coisas e coisinhas cujo impacto na vida futura são pouco relevantes.

Mas, ainda mais limitativo, é a pura e simples necessidade de controlo e da expectativa face ao outro, o que leva a diferentes interrogações por quem passeia no registo monocolor: a que grupo pertence; o que pensa; que interesses terá; é de esquerda ou de direita; é interesseiro porque disse agora isto; é doido porque disse agora aquilo; onde se situa; quem são os seus amigos; que espaços frequenta; é dos nossos; a mulher trabalha na Câmara; o filho está na Simoldes; o pai é dirigente associativo; qual a sua estirpe; é isto ou é aquilo… Afinal quem é? O reconhecimento da familiaridade é condição para a aceitação local, da esquerda à direita, e propósitos desinteressados de livre pensamento ou de apoios declarados são sentidos como traições incontornáveis e amuos inconsequentes.

A apologia da diversidade e a tolerância saudável são condições basilares para a prática da liberdade, sem constrangimentos, numa sociedade democrática e que quer desenvolver-se numa amálgama de cores, sem a prevalência do translúcido, numa perfeita e descomplexada nitidez de pensamento verbalizado e posto em prática.

Basicamente, isto quer dizer que ser contra uma Volta a Portugal não faz de alguém menos PSD e mais PS; ou achar que não privatizar a água sob nenhum pretexto seja uma traição ao executivo que o fez; ou querer um concelho com saneamento seja um capricho de quem apenas usa a maledicência – é uma exigência que todos juntos temos de fazer, ponto! O mesmo se aplica quando apoiamos eventos desportivos que dão visibilidade ao concelho e tantos outros levam a mal; ou querer que o António Rosa ganhe a União de Freguesias e ao mesmo tempo achar que a Helena Santos deve ser presidente da Assembleia Municipal – qual a estranheza da diversidade de opções de voto?

Qual o problema em criticar uns e outros, e todos ao mesmo tempo, ou pura e simplesmente valorizar o que achamos por bem e evidenciar solidariedade em certas opções e decisões!?

A pertença ao um determinado grupo nada tem de errado, e acreditar em propósitos colectivos intensifica a solidariedade e mobiliza quem se identifica com os mesmos, porém, quando o grupo é um feudo, há subserviências difíceis de quebrar e que toldam o juízo e o julgamento, no limite, aniquilam a liberdade do indivíduo. Há os arregimentados do sistema que não conseguem ver para além do seu próprio umbigo e, do outro lado (ou lados), os que querem perpetuar essa ligação umbilical com os seus seguidores.

Dando exemplos concretos, temos todos aqueles que usam o slogan “Azeméis é Vida” para justificar qualquer coisa, por mais banal e de mera gestão corrente que exista, com tal cegueira que nada se vislumbra de negativo e pouco haverá a corrigir.

E, claro, os que querem ser alternativa ao poder vigente metralham quem ouse aproximações à Vida de Azeméis (que naturalmente existe) autoproclamando-se defensores da diversidade quando, na realidade, não a suportam.

 

Curiosamente, tenho observado muitas coisas nestes últimos tempos, de uma forma mais distante e menos contaminado por opiniões de terceiros – tanto quanto me é possível –, em particular no que diz respeito à política local.

Com ou sem mudança, os feudos e os constrangimentos deveriam acabar e não existir tanta obsessão com o controlo e intolerância à diferença de opinião.

Talvez exista uma altura em que os grupos se misturem, as ideologias se complementem, as ideias renasçam, os discursos mudem e a entreajuda por uma Azeméis com Vida surja de forma natural.

Construamos pontes entre pólos opostos e ousemos nelas atravessar, deixando um rastilho multicolor de ideias e partilha, sem medo da audácia da provocação que nos faz tremer sempre que alguém nos confronta.

Não quereremos todos o melhor para o concelho? Enquanto isto não acontecer, vamos lá todos inaugurar rotundas, tirar umas fotos de circunstância, gritar que somos os maiores e cuspir em tudo o que o outro faz… 

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