Caridade ou solidariedade no fim da vida - Do existir biológico ao existir biográfico

Caridade ou solidariedade no fim da vida - Do existir biológico ao existir biográfico

Por Carlos Costa Gomes / Opinião / segunda, 30 novembro -0001 00:00

1. Na sua medular condição de pessoa doente, cada existir biográfico, fragilizado numa batalha sem tréguas imposta pelo adoecer, assume um intrínseco registo da caridade. E a tomada de consciência desta realidade dorida impregna a vida da pessoa doente, que retoma a questão radical para a qual pede resposta. A Relação clínica cuidada, humanizada e inadiável, é a que urge aqui acontecer, aberta a este repto de caridade pessoal, quantas vezes antecipando-se à demanda religiosa, igualmente necessitada de resposta específica. E ao exercício desta caridade do doente compete-me ao médico ao profissional de saúde, se assim questionado, responder e responder de forma competente, contrariamente ao repto da eventual demanda religiosa!

2. Temos como clara a diferença entre a caridade e a solidariedade para com a pessoa doente. Evocando naturalmente um processo de transformação, o atual contexto não restringe identificar a caridade como expressão de religiosidade do ser humano. Falar de caridade no exercício da medicina é convocar (“co-vocare”) o profissional de saúde para um diálogo aberto à interioridade de cada pessoa doente, para ajudá-lo a alcançar o discernimento possível para a compreensão de si neste seu adoecer. Do seu adoecer, não exclusiva nem fundamentalmente da sua doença. Naturalmente que este diálogo pode desembocar no patamar do religioso como expressão ascética de uma relação com o divino, onde terá lugar, e certamente de forma mais adequada, o assistente religioso, não o profissional de saúde.

 

3. Mas a exigência da caridade pede ao profissional de saúde: a) atenção, desde logo, ao modo de cuidar, do seu significado à sua expressão; b) a abordagem dedicada à dor; se a dor, assim que desnudada, deve ser eficazmente tratada, sob pena de, não o sendo, constituir uma má prática médica, o sofrimento deve ser mitigado, integrado, acompanhado, com a proximidade de uma presença humana, com um discurso não compaginado em meras palavras amáveis, porventura até imoral; c) um paradigma de comunicação com a pessoa doente que contemple uma disposição de escuta ativa. Escutar é, efetivamente, um ato de profunda caridade da pessoa, manifestação de um querer compreender: “estou aqui para fazer o que precisas, não para fazer o que posso fazer”; escutar é bem mais que ouvir; escutar é percorrer a via aferente, que me leva até ele, e construir a via eferente, a possibilidade real de que o outro venha até mim, numa viagem livre mas confiante. Como Daniel Faria nos propõe, devo ser não simplesmente um lugar para o outro, mas inequívoco “lugar do outro”! d) que trate eticamente bem o doente. Que respeite a sua autonomia, não como corolário de uma feroz liberdade que conduz a um abandono desumano do doente no seu processo de decisão, mas como oportunidade que lhe é conferida para tomar decisões serenas, livres e apoiadas na proximidade justa do profissional de saúde (médico e enfermeiro) e numa informação indispensável que compete médico disponibilizar. Que, neste tratar eticamente bem, dignifique o s viver e o morrer, qual seja a lonjura do seu percurso. Só deste modo se respeita o existir biológico e o existir biográfico de cada pessoa.

Deixe um comentário

pub
Landeau Therapie
  • Popular
  • Comentários

Please publish modules in offcanvas position.