A Vila de Azeméis

A Vila de Azeméis

Por Nuno Araújo / Opinião / quarta, 02 agosto 2017 09:45

Um amigo dizia-me que Oliveira de Azeméis pode ser definida como uma “aldeia grande”. A sua constatação não era pejorativa nem torpe, considerava apenas que tem pouco de cidade, naquilo que designamos de urbano, conceito que engloba também a vida diária com as suas características mais intangíveis e que nos transporta para um pulsar citadino como vemos em muitos outros locais. Isto dá que pensar, sobretudo, se queremos ou não uma centralidade dita urbana, de cidade mesmo, com movimento, comércio, bares, esplanadas, sonoridades, trânsito, gente na rua, trabalhadores, modas, juventude, velhos, multiculturalidade, enfim, coisas de cidade e que nenhuma das aldeias grandes à nossa volta tem (exceptuando, talvez, São João da Madeira, a qual, nas palavras do meu amigo, se define como uma “cidade pequena”. A Feira não conta, porque tem cidade mesmo).

É extremamente apetecível para qualquer candidato dizer que irá transformar a cidade em algo semelhante, mas a dúvida que tenho é se nós, oliveirenses, queremos deixar de ser uma “aldeia grande”, se desejamos mudanças mais radicais que nos privem da identidade conservadora que nos define e se abdicamos do aparente controlo que a familiaridade das ruas oliveirenses nos dá. Talvez não queiramos ir por aí, com inovações urbanas que nos retirem a paz, o sossego e a qualidade de vida de “aldeia grande”.

Sociologicamente temos características particulares com muita população a trabalhar na indústria por turnos, ou muita gente a deslocar-se para concelhos vizinhos sem grande tempo para passar pelo “centro da vila”; e o tempo, esse inevitável fado bom conselheiro, criou uma série de hábitos e modos de vida com uma preponderância para a manutenção dos mesmos sem rasgos de mudanças súbitas ou, usando um estrangeirismo, impermeáveis a acções “out of the box”.

Por outro lado, e tendo em conta a realidade social, demográfica e geográfica do nosso concelho, temos uma centralidade nada apetecível para quem mora a norte ou nordeste (será mais fácil ir a São João da Madeira), menos opções para quem pretende desfrutar de prazeres mundanos e ausência de pessoas (diria mercado, clientes, fregueses…) que inibem investimentos privados suficientemente rentáveis no centro na cidade.

Esta realidade, aliada ao invisível acordo tácito que os oliveirenses fizeram ao longo dos tempos no que à preferência por “aldeia grande” diz respeito, perpetua esse sentimento de que nada acontece, nada se passa e uma resistência inequívoca a alterações qualitativas no que à centralidade concerne.

Estas constatações não implicam, porém, que tudo deva continuar como está ou que intervenções ditas inovadoras não possam acontecer, mas vale a pena reflectir e pensar que centralidade queremos projectar para o futuro.

Pessoalmente, passo bem sem centros comerciais, cadeias “fast food” e outras vulgaridades de “cidade” que replicam tendências desprovidas de identidade e diferenciação que nada ajudam à afirmação de um concelho nas suas particularidades. Ou, então, querermos fazer coisas só porque sim, ou porque soa bem, ou que ouvimos falar e resultou num ou noutro concelho, ou porque é modinha…

Talvez fosse suficientemente disruptivo reenquadrarmos os nossos projectos ditos urbanos numa mentalidade de vila moderna, respeitando o conservadorismo oliveirense, os seus aspectos sociológicos e, acima de tudo, a vontade da população através da escuta activa (mas não vale apenas durante períodos pré-eleitorais para “inglês ver”).

Adquirirmos uma centralidade necessária de “vila”, menos de cidade igual a tantas outras e mais ambiciosos do que aldeia, seria o ideal… Quando digo “vila”, também como o meu amigo falou de aldeia, nada de paternalismos torpes, apenas uma forma inovadora de nos diferenciarmos do resto que quer McDonald’s para dar a ideia de cidade, ciclovias porque ficam bem, parques urbanos porque são fixes, salas de espectáculos para o milionésimo enfadonho concerto dos DAMA, galerias sem utilidade (ou para os aprendizes de feiticeiro maridos/mulheres que aprenderam a pintar num curso online), incubadoras de coisas que todos acham muito interessantes mas não sabem para o que servem, startups futuramente falidas e indústria 4.0 (modernices…).

Eu quero é uma vila 4.0, na qual tenha uma centralidade tranquila de comércio justo inovador que não existe em mais lado nenhum, um terceiro sector a dar cartas nos edifícios abandonados da cidade, jardins e flores que podemos cheirar (sem estragar), hortas e partilha de casas por estudantes que nem sabem onde fica Oliveira de Azeméis, caminhantes estrangeiros que por aqui passam às dezenas todos os dias e terem onde ficar, voluntariado intergeracional organizado com partilha na diferença, pronto, admito até espaços de “coworking” para jovens criativos que contribuam para o crescimento da vila. Praças de encontro, caminhos recuperados, livros espalhados, respeito comunitário no sossego e paz que queremos, sem perdermos o sabor das farturas Couto no sítio de sempre, mas podermos apreciar uma estalagem recuperada cheia de futuros chefes de cozinha, num projecto arrojado na nossa vila.

No fundo, há coisas a fazer para que saibamos para onde ir, naturalmente, numa constante guerra contra a vil tirania da indiferença que teimosamente deixamos que se apodere de nós. Azeméis é Vila (novo slogan!).

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