"Ainda hoje tinha coragem para voltar a ser presidente da Câmara Municipal"

"Ainda hoje tinha coragem para voltar a ser presidente da Câmara Municipal"

Por / Entrevistas / segunda, 03 julho 2017 00:00

Desenvolveu uma longa actividade no corpo de Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis, tendo entrado para a corporação em 1960 e sido nomeado 1º Comandante a 13 de Agosto de 1960, função que desempenhou até 18 de Novembro de 1988, altura em que pediu a passagem ao quadro honorário, refere o livro “Presidentes da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis - 1800-2009”, editado pela Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis.

O CidadesOnline esteve à conversa com Ramiro Alegria, ex-comandante dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis e ex-presidente da Câmara Municipal por dois mandatos, levados a cabo entre 1986 e 1993. 

“Neguei-me a ir para comandante dos Bombeiros quando me convidaram, porque entendi que não teria competência para isso”, confidencia o ex-comandante dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis. De acordo com este, foi-lhe colocado o problema de a Corporação estar há um ano sem comandante, facto que a faria perder direito a subsídios. Então, o também ex-presidente da Câmara Municipal, propõe entrar para os Bombeiros durante um ano, para haver “tempo de arranjar um comandante a sério”.

Mal entrou para o cargo, Ramiro Alegria teve logo um problema. “Uma dissidência que houve dentro dos bombeiros”, tendo havido processos disciplinares. “

Foi complicado, muito complicado mesmo”, afirma. “Embrulhei-me nos processos disciplinares. Passou-se um ano e eu ainda andava naquilo. Quando reparei, já tinha passado esse tempo. Nunca mais ninguém me falou em ser substituído”, conta. Foram apresentando a Ramiro Alegria os problemas que surgiam. “Eu ia resolvendo sempre as situações. E fiquei lá”. A presença do ex-comandante era factor de união entre os homens.

Outra luta de Ramiro Alegria foi a construção de um novo quartel. “Foi outra coisa que me prendeu lá. Vi que o antigo quartel não tinha condições”. Preponderante para a construção do novo quartel, segundo Ramiro Alegria, foi João Ramalho. “O senhor João Ramalho era um doente dos bombeiros. Mal me viu com interesse no quartel, mais interesse ele teve. Então começámos os dois a trabalhar nisso. E o quartel deve-se realmente a ele”, sublinha, modesto.

Assim, Ramiro Alegria “acompanhou todo o processo de reconstrução e ampliação do quartel que viria a ficar concluído em Junho de 1977”, refere o livro “Presidentes da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis - 1800-2009”.

Relativamente à corporação que serve actualmente o concelho de Oliveira de Azeméis, Ramiro Alegria entende que se trata de um grupo antigo e experiente. “Felizmente temos um presidente que está lá de pedra e cal”.

Todavia, nem tudo parece isento de dificuldades no comando actual. “Tenho ouvido que têm saudades de mim. Que havia mais respeito. Parece que esse respeito hoje em dia não é tão evidente”, afirma. 

“Graças a Deus, acho que tudo o que fiz foi correcto”

Para além de obras como a construção da fonte luminosa, no largo Camões, a “reorganização dos serviços e do quadro de pessoal da Câmara, o início da informatização de alguns serviços, a extinção dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento e o controlo e amortização do passivo existente à data da tomada de posse” foram, de acordo com o citado livro, as obras que se destacaram nos dois mandatos autárquicos de Ramiro Alegria.

“Outro caso em que também me neguei quando me convidaram. Não me esqueço”, sublinha o ex-presidente. Ramiro Alegria foi chamado tendo-lhe sido colocado o problema do débito da Câmara Municipal, que era “muito grande”, sendo necessária uma pessoa que resolvesse o problema. “Acho que fiz um bom trabalho na Câmara”, confidencia. O ex-responsável começou por encontrar uma Câmara desorganizada.

“Eu não compreendo como é que se vivia antes de eu lá estar. Só havia secção técnica, comandada pelo engenheiro Delgado. O que ele dissesse era o que se fazia. A parte financeira dependia apenas do chefe da secretaria. Era ele que mandava“.

Há, contudo, uma pessoa que Ramiro Alegria faz questão de evidenciar. “Uma funcionária da Câmara que era a Maria Emília. Escrevi-lhe uma carta há pouco tempo a louvá-la pelo seu trabalho. O meu êxito na Câmara deve-se a ela. Ela teve um jeito extraordinário para orientar pagamentos”.

"Eu estava semprepresente quando a Câmara começava o serviço"

A relação do ex-presidente com os funcionários da Câmara era - conta o próprio - exemplar. “Usei um sistema em que quando eles iam assinar o ponto, faziam-no na minha frente, na minha secretária. Eu estava sempre presente quando a Câmara começava o serviço. Os funcionários vinham, assinavam o ponto e cumprimentavam-me de mão”, diz. Segundo o também ex-comandante, a partir de certa altura, os funcionários colocavam-no ao corrente de diversas situações. “Os funcionários foram uns auxiliares para a minha governação. Eles mesmos diziam o que devia ser feito”. O ex-presidente aceitava as opiniões. “Aceitava, porque achava que eram razoáveis. Também tive sorte com o grupo de vereadores daquele tempo. Foram sempre consensuais comigo. Nunca me criaram problemas”, conta.

Também com os presidentes de junta Ramiro Alegria manteve uma relação de íntima amizade. “Uma das coisas que eles tinham é que chegavam à Câmara e não precisavam de pedir licença para falar comigo. Entravam, empurravam a porta, e vinham falar comigo ao gabinete”.

O ex-responsável não marcava reunião com os presidentes de junta. Eles colocavam-lhe um problema e ele marcava reunião na junta de freguesia. “Chamava um carro e lá estava eu na junta”.

“Ainda hoje tinha coragem de voltar a ser presidente da Câmara. Não penso nisso com 92 anos. Mas se fosse mais novo, era capaz de ir”, confidencia Ramiro Alegria. Segundo este, os presidentes que lhe sucederam “não tiveram rasgo nenhum”.

O ex-presidente abre todavia uma excepção. “Ápio Assunção tinha rasgo”. Não obstante, é a única excepção que abre. Vê, contudo, que desde o seu tempo pouco foi feito na cidade. “Nunca mais se ouviu falar em obras. Depois de eu ter feito o saneamento, nunca mais ninguém o continuou”.

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